Em uma comunidade profissional no LinkedIn, um colega compartilhou o post de outro consultor que perguntava: “Você é um capital a ser aplicado ou um custo a ser minimizado?“. Imediatamente, vieram-me à mente as pérolas cotidianas que já não nos causam estranheza nem indignação:
- gestão de pessoas
- administração de recursos humanos
- “as pessoas são nosso maior ativo”
E, agora, isto: “capital a ser investido” e “custo a ser minimizado”. São só algumas das impropriedades de nossa mal refletida linguagem profissional.
Sobre o assunto, Henry Mintzberg, em seu livro Managing, de 2009 (disponibilizado em português pela Bookman em 2010), diz o seguinte:
“Observe que tratar algo como um “recurso” é considerá-lo como uma informação - em geral numérica - para propósitos de controle. Assim, “alocar recursos” é uma função do plano de informação da gestão, no papel de controle. Aliás, tratar os funcionários como “recursos humanos” significa tratá-los como informações, não como pessoas: as pessoas são reduzidas a uma pequena dimensão de seus eus.“ (página 72; em negrito na versão em português).
Faço questão de utilizar a expressão “gestão das relações de trabalho” (Mintzberg fala de “gestão interpessoal no plano das pessoas” - trigonométrico demais para mim!). E faço questão, igualmente, de não utilizar, exceto para combatê-las, as expressões listadas acima. Questão de atitude em relação à dignidade humana.
Sirvo pessoas, trabalho com e para pessoas, compro serviços de pessoas, dispenso o serviço de pessoas. Qualquer que seja o tipo de contrato que nos coloca em relação - contratos regidos pela CLT, contratos regidos pelo Código Civil, contratos de curto ou de longo prazo (ou por prazo indeterminado), contratos expressos ou tácitos, contratos que envolvam subordinação ou contratos absolutamente paritários, não me tornam dono delas, não as colocam em meu Balanço Patrimonial, não as qualificam como parte de meu Ativo. E não me permito ser contado no patrimônio de ninguém, também. Isso seria ultrajante.
Pessoas não são coisas, não se resumem a informação. São she ou he, nunca it (ou bit). Romântico? Não, prático. Se dermos nome errado à realidade que percebemos, nossas percepções tornam-se falsas e nos tornamos incompetentes para administrar a realidade. E se nos tornamos incompetentes, não geramos valor para nosso cliente, seja quem for. Destruímos riqueza em vez de gerá-la. Para que clientes seremos úteis, se nem ao menos podemos dar o nome adequado às pessoas e distingui-las dos objetos à volta?
Próximo passo: reduza seus clientes a uma carteira e seus correspondentes a um mailing. Anuncie a venda de sua carteira (”por motivo de mudança”) por meio de spam enviado a seu mailing. Destino: o inferno mercadológico, onde você será apenas mais um item do inventário de estoque do diabo.
Capelo não é crachá nem carteira funcional.