Papo de Primeira em Floripa

gestão de oportunidades, gestão de relacionamentos, marketing

Papo de Primeira em Floripa

No Comments

Para celebrar ou para lamentar?

ética do trabalho

Se algum de vocês quiser me irritar profundamente, convide-me para fazer algo que não faz sentido. Posso sugerir uns exemplos: experimente convencer-me a carregar uma faixa com os dizeres “O povo unido jamais será vencido!” ou “Por uma universidade pública, gratuita e de qualidade!”. Ditas por quem as diz e nas circunstâncias em que são lembradas, elas geralmente estão refletindo exatamente a realidade que as nega: quanto mais coesa se mostrar a massa, mais facilmente será manipulada (”toda unanimidade é burra”, dizia um sujeito que podia ser facilmente apelidado “o desunido”); e, certamente, o movimento paredista nas universidades controladas pelo Estado (o que não faz com que sejam mais públicas que quaisquer outras), por fazer do tempo da pesquisa e da docência um tempo para pintar e expor aquela frase já gasta, mostra como ela faz tanto sentido quanto o hino do Grêmio ou do Corinthians (para não me acusarem de partidarismo) - ou seja, nenhum. É puro diversionismo.

Agora, se você quiser “arrumar sarna para coçar-se”, convide o rabugento aqui para fazer uma palestra para sua turma de escolares ou profissionais sobre Tiradentes, o sujeito que deu motivo para que, hoje, um país riquíssimo como o nosso, esbanjando índices altíssimos de desenvolvimento social, com uma produção intelectual invejável (somos o maior país africano em número de Prêmios Nobel, segundo o último levantamento do IBGE - ou será que foi o Kibeloco?), com a melhor infraestrutura de educação, saúde, transportes, telecomunicações, produção e transmissão de energia elétrica do mundo - acabamos de ultrapassar Plutão, aquele planeta superdesenvolvido, em todos esses itens… bem, o tal Tiradentes deu-nos motivo para celebração nacional.

Para começo de conversa, fui pesquisar na Wikipedia o significado de alferes. Podia ser o equivalente a um suboficial das forças armadas. Mas, de fato, designava o equivalente, no meio militar ou em meios civis, àquela figura típica das escolas de samba: o porta-bandeiras. Daí, lembrei-me que a tal Inconfidência Mineira (uma contradição em termos, já que pouca gente é tão discreta quanto os mineiros - de modo que tudo pode não ter passado de intriga da oposição) era liderada por esse “frentista” de escola de samba do século XVIII, mas a profissão mais representada entre seus acólitos era a de poeta. Lembro os nomes de dois (não lembro o nome da professora de História que os inculcou em meu cérebro, entretanto): Cláudio Manoel da Costa e Tomás Antonio Gonzaga. Não adianta procurar nos anais da Academia do Fardão - além do fato de que ela não existia naqueles tempos pré-diluvianos, a poesia deles mal chegava aos pés de José Sarney, o do Plano Cruzado. Cada um tem o Bertolt Brecht que merece - e o alferes tinha logo dois… Deu no que deu: o maior fracasso privado da história deste país (embora não faça sombra a qualquer um dos enormes fracassos públicos que o precederam ou sucederam). Tão grande que é celebrado até hoje, por increça que parível.

Se eu fosse ensinar História no ensino fundamental, minha primeira proposta seria uma greve disfarçada de celebração: juntaria os cinco maiores fracassos de nossa história nacional - a Reforma Tributária de Tiradentes, o Plano Cruzado, o Plano Verão, o Plano Bresser e o Plano Collor - e os transformaria, não em um holiday, mas em uma holiweek, uma semana inteira de feriados para celebrar nossos grandes fracassos nacionais.

No século XVIII, havia um tal Caminho Novo das Minas Gerais, ao longo do qual o resultado do esquartejamento foi distribuído. É possível que a falta de qualquer novidade nos caminhos que levam a São Luiz do Maranhão ou a Maceió das Alagoas possa ter desestimulado qualquer idéia de repetir o processo cirúrgico nos últimos 25 anos - só tem estrada velha neste país, resultado, inclusive, do fato de que nossos planos todos não passam de indiscrições e incompetências.

Hoje em dia, comemora-se o fracasso e elege-se para a presidência do senado federal o sujeito que presidiu 4 fracassos retumbantes (Cruzado I e II, Verão e Bresser) - os portugueses, sempre alvo de nossas piadinhas mais infames, sabiam lidar melhor com os fracassos (com os nossos, pelo menos) - corda e facão bastavam (ou um desterrinho básico, para a África - afinal, tínhamos tirado tanta gente de lá… era necessário fazer devoluções). Nós precisamos de heróis e feriados - mais destes que daqueles, claro, que ninguém é de ferro.

Falando nisso, daqui a dez dias tem outro: um dia sem trabalho para comemorar o Dia do Trabalho. E depois eu é que sou rabugento… Arre!

No Comments

Marolinha em mar azul… II - Concorrência é ruim?

ética empresarial

Como criar novos mercados e tornar a concorrência irrelevante - este é o subtítulo da edição brasileira do livro de W. Chan Kim e Renée Mauborgne, A estratégia do oceano azul, publicado pela Editora Campus.

Primeiro, perguntei-me se isso não fora acrescido pelos editores, já que o título original, em inglês, Blue Ocean Strategy, não incluía esse subtítulo. Mas achei, no prefácio escrito pelos autores, a fonte da pérola:

A estratégia do oceano azul desafia as empresas a transpor as barreiras do oceano vermelho da competição sangrenta, mediante a criação de espaços de mercado inexplorados que tornem a concorrência irrelevante.

Eu já afirmei, em outro post, que o livro é bom e sua metodologia para realizar uma estratégia de diferenciação absoluta pareceu-me bem consistente. Então, não vou entrar mais nesse mérito. Vá lá, leia o livro, aprenda o que tiver de aprender e faça o que tiver de fazer.

Mas, eu quero perguntar, se não ofende: onde foi que perdemos o significado das palavras concorrência e competição? E o que é que sobra do mercado se essas duas palavras se tornarem verba non grata? Eu arriscaria dizer que diagnóstico errado foi feito, em algum momento, e sintomas de uma coisa foram tomados por sintomas de outra. Esse é aquele momento em que o zagueiro corinthiano, desavisadamente ou mal-intencionadamente, dá um passe ao atacante palmeirense - um momento lamentável.

Concorrência significa, basicamente, o ato ou efeito de correr com, usando o jargão do dicionário. Lembra, naturalmente, uma corrida. Gosto de imaginar a mais nobre delas, a maratona.

Competição significa, basicamente, o ato ou efeito de orar com, pedir em conjunto, unir-se numa prece. É possível pensar numa comunidade que acorre a uma capela, movida pela mesma intenção a ser manifesta diante da divindade.

Associar competição com sangue e imaginar uma corrida solitária, sem concorrência, deve significar algum tipo de perda conceitual ao longo do processo. Ou algum ato falho - fizemos a coisa errada, em algum momento, ou desenvolvemos hábitos indevidos, que chamamos por um nome impróprio até perdermos a completa noção da diferença entre o nome e a ação sendo nomeada.

Recuperar o significado perdido do nome não é ação muito popular. Linguistas têm dado preferência, muitas vezes, à conotação corrupta do que ao sentido preciso do termo - respeito à evolução da língua, dizem. Mas, in extremis, isto significa que perdemos nossa capacidade para dar nomes à realidade, o que implica dizer que perdemos o controle da realidade. Faz parte da condição humana, segundo os teólogos, mas isso não nos condena a uma pusilânime abdicação de nossas prerrogativas, conformados e inertes.

Acho que, agora, será necessária uma Marolinha em mar azul… III. Até lá.

No Comments

O que é uma empresa?

ética empresarial

Empresa é uma organização de pessoas com uma visão compartilhada de contribuição socialmente legítima, definida em termos de desempenho econômico.

Prestando consultoria a empresas durante os últimos anos, preocupei-me em ter uma definição de empresa que funcionasse como referência para meu trabalho. Assim como espero que um advogado tenha uma posição clara a respeito do direito e que um arquiteto tenha bem resolvido, em sua mente, o conceito de edifício, eu acho que não poderia prestar um serviço decente se não soubesse ou se não soubesse definir (o que é a mesma coisa, penso) o que é uma empresa. E a definição acima, sintetizada a partir de minhas leituras do decano da administração, já falecido, Peter Drucker, parece-me suficientemente abrangente e sucinta ao mesmo tempo. Cada parte da definição é rica em implicações a que empresários e administradores devem estar atentos. Veja algumas delas:

Organização de pessoas:

  • uma empresa é, basicamente, uma estrutura relacional humana e não deve ser confundida com seus ativos, sejam quais forem;
  • gestão de pessoas é gestão das relações organizacionais entre pessoas - ou é uma aberração ética, paternalista e autoritária;
  • organização significa que uma determinada finalidade foi aplicada às relações entre as pessoas, definindo-as e permitindo seu gerenciamento.

Visão compartilhada:

  • empreendedorismo é liderança, a capacidade de comunicar uma visão que comprometa pessoas com uma causa comum - isso é a relação na base das organizações;
  • uma empresa deriva da iniciativa privada ou da iniciativa pública, do espírito empreendedor que projeta visões de futuro motivadoras e agregadoras de pessoas numa comunidade;
  • emprego é um termo da economia, aplicado a recursos; compromisso é a palavra que define a relação de uma pessoa com uma organização, na administração; use a palavra errada e você terá uma relação errada (as linguagens das disciplinas científicas não são intercambiáveis - estudantes universitários deveriam aprender isso no primeiro mês de aulas, mas…);
  • visão não é tarefa - o que a empresa faz deve ser consequência de para onde ela está indo; se se inverte essa ordem, temos, rapidamente, um problema de identidade e sobrevivência.

Contribuição socialmente legítima:

  • toda empresa é uma concessão pública e existe por causa do interesse público
    • o governo, representante oficial do interesse público, emite alvarás;
    • o cliente, unidade básica do mercado, compra produtos e serviços, pagando por eles um preço que sustenta sua produção e distribuição;
  • uma contribuição social não legitimada pela sociedade através de seus órgãos oficiais gera quadrilhas, não empresas (a arte de administrar não pode, por si só, distinguir umas das outras - a ética e o direito é que o fazem);
  • uma contribuição social não legitimada pela sociedade através dos mecanismos do mercado (preços, crédito, etc.) gera falências.

Desempenho econômico:

  • organizações do primeiro setor (governo) e do terceiro setor (sociedade civil) também têm desempenho econômico, mas suas contribuições não são definidas por ele;
  • desempenho econômico é, fundamentalmente, geração de riqueza - essa é a razão fundamental da existência de empresas;
  • desempenho econômico é a responsabilidade das empresas - daí, a relevância da expressão accountability;
  • desempenho econômico é mensurável e deve ser medido - daí, a relevância da contabilidade;
  • desempenho econômico inclui lucratividade, rentabilidade e sustentabilidade.

Pessoas de negócios e da mídia, políticos, acadêmicos e cidadãos comuns fariam bem em voltar a esses conceitos básicos, tanto para a tomada de decisões quanto para a descrição adequada da realidade, inclusive as crises deflagradas pela ignorância ou desprezo dessas definições.

No Comments

Para entender a crise…

ética empresarial
No Comments

Grupo Sete em São Bento d

inovação, marketing, ética empresarial

O Grupo Sete é uma organização de prestadores de serviços profissionais e empreendedores com uma visão de colaboração na prestação integrada de serviços a empresas, todos de Florianópolis e alguns associados à Confraria Empresarial.

O grupo está promovendo, na Associação Comercial de São Bento do Sul, nos dias 18, 19 e 20 de fevereiro, a palestra Use a crise para vencer: foque o valor para o cliente, foque as competências da organização, foque o resultado. A responsabilidade pela palestra é do autor deste blog.

O objetivo é, de um lado, chamar a atenção para o fato de que a crise de que ouvimos diariamente, como quase tudo em economia, é um fenômeno psicológico com pelo menos um viés de perda a absorver e não se sabe quantos vieses de oportunidades a explorar. O que aconteceu não é, necessariamente, responsabilidade nossa. Mas, o que faremos agora é, absolutamente, nossa responsabilidade.

Coisas boas para fazer na crise:

  • reunir os colaboradores para conversar sobre a visão de futuro de nossa empresa, de nossa cidade, de nosso país, de nosso planeta…
  • repetir a iniciativa com os fornecedores estratégicos e com os clientes mais importantes…
  • tirar um domingo inteiro de férias e ler o livro “Inovadores em ação”, do William C. Taylor e da Polly LaBarre (por ex.)…
  • tirar um sábado inteiro de férias e passá-lo com a(o) namorada(o), a(o) esposa, os pais e irmãos, os filhos - só para lembrar o que é mais importante que produtos, projetos, dívidas e problemas…
  • convidar o padre ou pastor de sua comunidade para um almoço e café e conversar durante toda a tarde de sexta-feira sobre o livro do Eclesiastes - só para não perder a perspectiva…
  • gastar toda a manhã de uma segunda-feira visitando uma escola de ensino fundamental em sua comunidade, perguntando-se como ajudar a formar melhor os futuros colaboradores de sua empresa…

e, para não perder o hábito,

  • trabalhar duro nos demais dias da semana, com sua equipe, para superar o que se perdeu e aproveitar as novas oportunidades que aparecem todos os dias.

São só sugestões. E não vou sugerir nada que você deva evitar - você já é bem grandinho para não precisar que lhe lembrem os conselhos de sua mãe. Ou não?

No Comments

Marolinha em mar azul… - I

inovação, marketing, ética empresarial

Estou lendo A estratégia do oceano azul, de W. Chan Kim e Renée Mauborgne. Exemplar emprestado da Lígia Fascioni, que primeiro comentou o livro comigo.

A primeira pergunta que vem à mente é: “a tal estratégia é alternativa a que outra(s)?” Bem, a ideia é evitar uma “estratégia do oceano vermelho”, caracterizada pela luta sangrenta entre concorrentes lutando por seu lugar ao sol e por alimento num espaço super-povoado (coisa de documentário da Discovery). O subtítulo é  Como criar novos mercados e tornar a concorrência irrelevante. Ah… como dizia Sartre, “o inferno são os outros” - mas nós não somos bárbaros, somos pós-modernos. Ao invés de eliminar os outros num banho de sangue (pós-modernos são politicamente corretos, certo?), nós os tornamos “irrelevantes”.

Falando assim, parece que eu já estou detestando o livro. Não é verdade. De fato, é um excelente livro e seu estímulo à inovação mercadológica é de valor altíssimo. Os cases avaliados, dos quais se deduz a formulação estratégica proposta, são exemplares. A fórmula proposta para a análise de valor e os passos do planejamento e execução da estratégia são muito bem definidos, de fácil compreensão e, até onde minha inteligência permite avaliar, logicamente impecáveis.

O problema fica onde, então? Antes e depois, a meu ver. Os autores começam “criando problema para vender solução”. O resultado é que o diagnóstico subjacente é equivocado e a terapia, embora eficiente no primeiro momento, não é sustentável. Funciona assim: se você entende a dor como se ela fosse a doença, você cura a dor. Muito eficiente e estimulante à imaginação - um mundo sem dor, para o sujeito que está no meio de uma crise de enxaqueca, é o céu, com música da Enya ao fundo e uma penumbra pouco agressiva (enxaquecosos têm fotofobia em algum grau). Então, dá-lhe paracetamol com cafeína. Acontece que o fígado não lida bem com grandes concentrações de paracetamol - e fígado que funciona mal provoca enxaqueca. Complicado, não?

Repetindo: onde está o problema? Não no livro. O problema está na maneira como entendemos duas palavras fundamentais ao sistema político-econômico capitalista: concorrênciacompetição. E, mais que isso, no modo como entendemos a palavra marketing. No final das contas, devo dizer, o problema é ético: o que estamos fazendo, por que estamos fazendo isso e que resultado buscamos? A resposta a essas questões é A resposta que importa.

O próximo post se chamará Marola em mar azul… - II. Aos poucos, podemos chegar a um maremoto. Sem vítimas, naturalmente.

No Comments

Gerar riqueza é possível? II

ética empresarial

O Mario, a quem me referi no post anterior, ainda escreveu-me o seguinte:

Outro dia li um anúncio que achei muito mal bolado. Dizia que o imóvel, aqui em Florianópolis, poderia ser usado tanto para moradia quanto para investimento. Agora, para que serve um imóvel residencial senão para morar? Deveria ser justamente o fato de gente querendo morar tornar o imóvel um bom investimento também. Mas estão transformando os imóveis quase que em papéis, como ações. Se não serve para morar, não serve como investimento também. Imagine a situação absurda, de se dar ao trabalho de construir um prédio, com apartamentos, cuja planta interna impossibilita a moradia, restando ao imóvel apenas a questão de investimento.

Ao Mario e a todos nós, fazem falta as tais aulas de introdução à contabilidade no ensino fundamental. Porque, no fim das contas, tudo depende do Balanço Patrimonial. Acontece que, sim, o valor de uma casa ou apartamento reside em sua utilidade - em geral, abrigar uma família que ali more. Mas esse valor pode ser maior ou menor, dependendo de quem mora nele - se o dono ou um inquilino. Vamos ver como isso se dá, considerando que a compra do imóvel foi à vista e sem levar em conta os impactos fiscais, que são acidentais (basta-nos o conhecimento proporcionado pela teoria contábil agora):

  • se o dono do imóvel escolher residir nele, seu balanço patrimonial conterá os seguintes lançamentos:
    • na coluna dos ativos, a débito da conta Imobilizado, o valor de compra, diminuído, daí para a frente, pelas sucessivas depreciações (eventualmente, esse valor poderia ser recomposto, para acompanhar a valorização ou desvalorização, obtidas ao verificar-se a expectativa de preço do imóvel, no caso de ser novamente vendido);
    • na coluna dos ativos, a crédito da conta Bancos, o valor desembolsado na compra do imóvel;
      • nesse caso, a geração de riqueza só será possível pela eventual valorização do imóvel por uma causa externa e acidental - a construção de um hipermercado ou uma cidade universitária a 500 metros dele, por ex. - e exigiria a venda para tornar-se efetiva.
  • se o dono do imóvel escolher adquiri-lo como investimento, seu balanço patrimonial conterá os seguintes lançamentos:
    • na coluna dos ativos, a débito da conta Imobilizado, o valor de compra (valor de mercado), diminuído, daí para a frente, pelas sucessivas depreciações (eventualmente, esse valor poderia ser recomposto, para acompanhar a valorização ou desvalorização, obtidas ao verificar-se a expectativa de preço do imóvel, no caso de ser novamente vendido);
    • na coluna dos ativos, o lançamento, a crédito da conta Bancos, do valor de compra do imóvel; e (eis a diferença)
    • na coluna dos ativos, o lançamento, a débito da conta Bancos, do valor recebido a título de aluguel, da família que nele resida ou da empresa que o mantenha para acomodar executivos em trânsito ou para ali estabelecer seu escritório;
      • nesse caso, a geração de riqueza incluirá a geração de caixa, para o proprietário do imóvel, proveniente do aluguel e não só de uma eventual valorização do imóvel para venda, como na situação anterior.

Fique claro: nos dois casos a geração de riqueza não está completamente garantida. Na primeira, a ação do proprietário terá menos influência na criação de valor, dependendo mais de mudanças no ambiente. Na segunda, a ação gerencial aplicada sobre os contratos de locação pode criar ou destruir valor, de acordo com sua qualidade. Em ambos os casos, o valor original estará baseado na capacidade maior ou menor de oferecer acolhimento a quem precisa morar. Mas, no primeiro caso, esse valor será consumido pelo morador-proprietário, enquanto no segundo caso esse valor será investido na geração de caixa através de contratos de aluguel.

Vale o mesmo para automóveis: um carro de família é bem de consumo, um “placa vermelha” é bem de capital. Ambos têm valor básico por proporcionar mobilidade a pessoas e cargas. O segundo tem um valor adicional que é proporcionar geração de caixa a seu proprietário.

O grande cuidado que se deve ter nesse assunto todo é verificar se a riqueza sendo gerada é sustentável ou se é ilusória - embora, no fim, toda geração ou destruição de riqueza esteja baseada em percepção psicológica de valor - a contabilidade pode registrar essas variações de valor no tempo, mas não pode (nem ninguém pode) assegurar a valorização, a desvalorização ou a simples manutenção das riquezas.

Por isso não é sábio basear a própria vida em valores materiais, pois eles são voláteis - vêm e vão tão facilmente. Razão pela qual pessoas e empresas devem condicionar seus esforços de geração de riquezas a sua relação com valores morais e espirituais permanentes. Falaremos mais sobre isso em outro post.

2 Comments

Gerar riqueza é possível? I

ética empresarial

O Mario é um jovem empresário do setor de tecnologia (software para automação industrial). Ele e seu sócio Fábio contrataram meus serviços de consultoria recentemente. E assistiram à palestra que proferi na Confraria Empresarial em agosto passado. Agora, o Mario escreveu-me, relatando sua dúvida: é possível gerar riqueza?

Em sua mensagem, há coisas que eu devo manter em vista, enquanto escrevo uma resposta:

  1. ele, em algum grau, relaciona aumento de riqueza a aumento da disponibilidade de recursos naturais
  2. ele também relaciona a geração de riqueza à especulação, geradora de bolhas, que canaliza recursos financeiros para certo setor, cujos preços são inflados artificialmente
  3. ele afirmou ter dificuldades com esse assunto por insuficiência de conhecimentos em economia

Em primeiro lugar, devo afirmar que, em consonância com o que disse em minha palestra, geração de riqueza é um conceito contábil, muito antes de a ciência econômica ter razão para ocupar-se dele. O fato de alguém terminar um pós-doutorado em qualquer área sem jamais ter sido introduzido a qualquer rudimento da teoria econômica, parece-me bem aceitável. O problema está em que seja possível (o mais provável, de fato) concluir o ensino fundamental sem conhecer o conceito de balanço patrimonial.

Em segundo lugar, riqueza é uma função da atividade humana (leia-se, ação inteligente) e não do estoque de recursos naturais. Não tem nada a ver com petróleo, água, urânio ou ouro. Tem de ver com genialidade e esforço humanos combinados. Não tem a ver com o capital inicial, nem com todos os passivos acumulados ao longo do tempo: geração de riquezas é a atividade humana que transforma capitais de qualquer tipo em ativos de valor superior. Geração de riquezas é função da inteligência, não dos estoques de matéria-prima enterrados sob o pré-sal.

Em terceiro lugar, geração de riqueza é sinônimo de geração de valor. É um fenômeno psicológico, não físico. Não tem a ver com uma (im)possível expansão do universo, mas com a percepção que temos de  cada uma de suas manifestações. Geração de riqueza, por isso, pode e deve ser qualificada segundo uma avaliação de sua sustentabilidade - porque o mesmo homem que atribui a um barril de uma meleca pegajosa e negra o valor de US$ 150 numa semana, pode, na semana seguinte, reduzir esse valor para US$ 50 ou expandi-lo para US$ 200. O desafio na geração de valor é a sustentabilidade no longo prazo. Qualquer idiota pode inflar o valor das ações da Petrobrás, falando sobre reservas de petróleo sob o pré-sal ou de água no subsolo de Marte no noticiário noturno. Gerar riqueza sustentável no longo prazo a partir dessas reservas e suas potencialidades requer a soma de muitos QIs superiores e organizações empresariais consistentemente construídas e mantidas ao longo desse tempo.

No Comments

Para que serve sua empresa? - a palestra…

ética empresarial

Noutro post, referi-me à palestra que proferi na Confraria Empresarial em 28.08.08. Num comment, o André, professor de Educação Física e empreendedor na área, perguntou sobre a possibilidade de ser disponibilizada a palestra toda aqui. Bem, ei-la: Para que serve sua empresa?.

Naturalmente, se alguém, lendo a apresentação, manifestar interesse por uma discussão mais ampla de algum ponto, isto pode gerar um novo post. Estou igualmente disposto a repetir essa palestra para grupos que se interessem pelo assunto (estou dizendo isso porque algumas pessoas já manifestaram, em outros momentos, curiosidade a respeito dessa disponibilidade).

É preciso dizer, entretanto, que boa parte do que esse blog é deve-se a essa palestra - e ela também resume alguns dos fundamentos de minhas crenças  em administração. Ou seja, não será difícil, para alguém que ouviu a palestra ou refletiu nos enunciados registrados na apresentação, identificar esses pontos em meus posts recentes ou nos futuros.

Até o próximo.

1 Comment
« Older Posts