Pessoas ou coisas?

ética empresarial

Em uma comunidade profissional no LinkedIn, um colega compartilhou o post de outro consultor que perguntava: “Você é um capital a ser aplicado ou um custo a ser minimizado?“. Imediatamente, vieram-me à mente as pérolas cotidianas que já não nos causam estranheza nem indignação:

  • gestão de pessoas
  • administração de recursos humanos
  • “as pessoas são nosso maior ativo”

E, agora, isto: “capital a ser investido” e “custo a ser minimizado”. São só algumas das impropriedades de nossa mal refletida linguagem profissional.

Sobre o assunto, Henry Mintzberg, em seu livro Managing, de 2009 (disponibilizado em português pela Bookman em 2010), diz o seguinte:

“Observe que tratar algo como um “recurso” é considerá-lo como uma informação - em geral numérica - para propósitos de controle. Assim, “alocar recursos” é uma função do plano de informação da gestão, no papel de controle. Aliás, tratar os funcionários como “recursos humanos” significa tratá-los como informações, não como pessoas: as pessoas são reduzidas a uma pequena dimensão de seus eus.“ (página 72; em negrito na versão em português).

Faço questão de utilizar a expressão “gestão das relações de trabalho” (Mintzberg fala de “gestão interpessoal no plano das pessoas” - trigonométrico demais para mim!). E faço questão, igualmente, de não utilizar, exceto para combatê-las, as expressões listadas acima. Questão de atitude em relação à dignidade humana.

Sirvo pessoas, trabalho com e para pessoas, compro serviços de pessoas, dispenso o serviço de pessoas. Qualquer que seja o tipo de contrato que nos coloca em relação - contratos regidos pela CLT, contratos regidos pelo Código Civil, contratos de curto ou de longo prazo (ou por prazo indeterminado), contratos expressos ou tácitos, contratos que envolvam subordinação ou contratos absolutamente paritários, não me tornam dono delas, não as colocam em meu Balanço Patrimonial, não as qualificam como parte de meu Ativo. E não me permito ser contado no patrimônio de ninguém, também. Isso seria ultrajante.

Pessoas não são coisas, não se resumem a informação. São she ou he, nunca it (ou bit). Romântico? Não, prático. Se dermos nome errado à realidade que percebemos, nossas percepções tornam-se falsas e nos tornamos incompetentes para administrar a realidade. E se nos tornamos incompetentes, não geramos valor para nosso cliente, seja quem for. Destruímos riqueza em vez de gerá-la. Para que clientes seremos úteis, se nem ao menos podemos dar o nome adequado às pessoas e distingui-las dos objetos à volta?

Próximo passo: reduza seus clientes a uma carteira e seus correspondentes a um mailing. Anuncie a venda de sua carteira (”por motivo de mudança”) por meio de spam enviado a seu mailing. Destino: o inferno mercadológico, onde você será apenas mais um item do inventário de estoque do diabo.

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Tudo é mídia…

criatividade, gestão de oportunidades, inovação, marketing

Para saber o que é mídia, você tem duas alternativas rápidas:

  • consultar o dicionário
  • consultar um amigo marqueteiro

Porém, se você quiser saber a senha para acessar qualquer coisa, as alternativas acima não o ajudariam. Você tem de perguntar ao “dono da coisa”, seja um website, uma conta de e-mail, uma conta bancária, uma porta de condomínio, um notebook, etc.. Certo?

Bem, antes que você comece a se perguntar onde eu quero chegar com essa conversa sem graça, vou contar-lhe o que descobri há algum tempo: senhas podem ser mídia.

O bistrô Berinjela Gourmet Sandwich, que eu frequento para trabalhar e fazer reuniões, oferece, como muitas outras casas do gênero, acesso à internet sem fio. Claro, a rede não é aberta, então você deve solicitar ao pessoal de atendimento a senha da rede wireless e digitá-la no campo adequado. Até aí, comportamento padrão.

Mas eles inovaram. Em vez de fornecer uma senha do tipo XYz4356 ou cliente$berinjela$, um modelo que todo mundo usa, eles criaram mensagens publicitárias curtas (tweets), alteradas com alguma frequência, para servirem de senha. Daí, quando você abre o notebook e pergunta ao garçom que senha é possível usar para acessar a rede enquanto toma seu café, a resposta vem mais ou menos assim:

  • experimentesanduicheseattle
  • bebairishcoffeeberinjela
  • provenectardeuvaverde
  • façaseuhappyhouraqui

Conclusão: tudo pode ser mídia, se você está preocupado em oferecer valor a seu cliente, com respeito, e é um pouco criativo (não precisa ser premiado em Cannes para sair-se com soluções assim, não é?).

Abaixo o spam! Viva a senha tweet!

Agora, imagine: se eles fazem isso com senhas de internet, o que eles não fazem com os sanduíches? Vá ver: eu recomendo!

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Sobre Wikileaks e liberdade de expressão…

democracia, marketing, ética empresarial, ética política, ética pública
“Livre pensar é só pensar” - esse é o mote da tirania que censura, dito por Millôr.
“Livre pensar é pensar e expressar-se livemente” - creio que esse é o mote geral da democracia liberal.
“Livre pensar é pensar e publicar sua perspectiva a respeito dos fatos, sob sua responsabilidade, às suas custas ou às custas de seus patrocinadores/anunciantes” - isso é a liberdade de imprensa típica da democracia liberal.
“Livre pensar é falar e publicar o que lhe dá na veneta” - isso é a liberdade irresponsável do franco atirador. Ele alegará liberdade de expressão para evitar responsabilizar-se pelo que disse ou publicou. Livre, mas irresponsável - tende a ser socialmente intolerável.
“Liberdade é não pensar, receptar o conteúdo roubado das conversas reservadas de outros e, depois de atirá-las livremente no ventilador, esperar que outros assumam o custo de mantê-las publicadas, defendendo sua irresponsabilidade com o apelo à liberdade de expressão” - essa é a ética canhestra do Wikileaks e de seus defensores, ao verem na posição dos provedores que lhe negaram a prestação de serviços algum tipo de censura.
Algo que os menos cultos em marketing ainda não entenderam é que cliente não é qualquer um que compre de você, cliente é aquele que se encaixe na definição de cliente de seu plano de marketing. Você trabalha para um comprador se ele é cliente - se ele não é cliente, você até vende para ele, mas trabalhar levando-o em conta só vai aumentar seus custos e comprometer sua imagem.
Pense bem - a Apple vende para qualquer um que possa comprar, mas ela trabalha para macmaníacos.
Até aqui, os provedores de hospedagem venderam serviços para o Wikileaks - no momento em que isso significou pagar a conta social e política do Wikileaks, eles saíram do barco. Seu plano de negócios não inclui isto, claro.
A meu ver, o assunto se resume ao seguinte:
  • o oficial americano que roubou e vendeu informação reservada deve ser submetido a processo disciplinar e/ou criminal nos termos da legislação de seu país (em qualquer organização pública ou privada, sua conduta seria motivo, pelo menos, para demissão por justa causa e, se bobear, queixa-crime);
  • o Estado americano deve assumir sua irresponsabilidade no trato da coisa pública (a comunicação interna entre seus embaixadores) e absorver o prejuízo; se não está a seu alcance enquadrar um cidadão de outro país em seu código penal, estará plenamente justificado se lhe dificultar a vida, tratando-o como inimigo do Estado americano (afinal, um posicionamento assumido pelo Wikileaks ao agir do modo como agiu) - se o povo americano discordar de seu Estado, que faça publicar leis que obriguem a que toda correspondência de Estado seja publicada em sites públicos (mas o americano médio não é burro e isso não vai acontecer, porque a lógica desse raciocínio exigiria a publicação de sua correspondência pessoal - com a amante, por ex. - em sites públicos; o Estado é uma personalidade jurídica e tem seus direitos, assim como as personalidades físicas o têm).

Os provedores que quiserem prestar serviços ao Wikileaks, as empresas que quiserem patrocinar seu site, as pessoas físicas que quiserem contribuir com mais documentos roubados de seus empregadores e qualquer um que queira apoiar o movimento libertário representado pelo Wikileaks deve fazê-lo, livre e responsavelmente - ou seja, não vá reclamar que seus clientes o abandonaram, que seus fornecedores deixaram de atendê-lo, que seus patrocinadores retiraram seu apoio, que sua mulher o mandou dormir no sofá. Você pode fazer o que você quiser - e os outros também.  O limite é a lei. Essa é a essência da democracia liberal. O resto é a ditadura do politicamente correto, uma peste que se vai tornando impossível de suportar, depois que conseguimos afastar do horizonte a ameaça totalitária.

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Visão - uma imagem do futuro

ética empresarial

A primeira definição no planejamento estratégico que considerarei é a visão de futuro, porque dela dependem as demais, como veremos.

Na definição de empresa que utilizo (uma organização de pessoas com uma visão compartilhada de contribuição social definida em termos de desempenho econômico), a parte em negrito é definidora de todo tipo de organizações sociais.

Ou seja, o que distingue uma organização de pessoas de um ajuntamento de pessoas é uma visão compartilhada de contribuição social. Igreja, Forças Armadas, Parlamento, ONG, Empresa: o cerne distintivo dessas instituições é, sempre, uma visão compartilhada, entre as pessoas que as constituem, de uma dada contribuição social.

O que vem a ser, então, uma visão?

Em primeiro lugar, devemos considerar o significado básico da palavra:

Percepção de formas, cores e relações espaciais através do sistema de captação e elaboração de imagens, formado pelos olhos e pelo cérebro.
(Aulete Digital, Visão, 1)

Estamos falando de visão como o resultado da aplicação de um sentido: o sentido visual. Mas a vida (e nós mesmos) somos mais complexos que isso. E dispomos da faculdade de criar imagens, em nosso cérebro, com nossos olhos fechados ou enquanto dormimos. Até, podemos criar imagens de coisas que não correspondem à realidade visível. Chama-se a isso imaginação.

Ora, a imaginação nos permite recuperar imagens do passado ou projetar imagens no futuro. O mesmo dicionário diz assim:

Pretensa imagem de acontecimento futuro ou passado.
(Aulete Digital, Visão, 5)

Assim, o dicionário estabelece uma relação entre a percepção (capacidade de desenvolver imagens da realidade como percebida pelos sentidos) e a imaginação (capacidade de criar imagens sem relação direta com a percepção sensorial).

Mas há outra definição, que acresce um detalhe:

Fig. Desejo, expectativa, sonho.
(Aulete Digital, Visão, 8)

Agora, temos a entrada em cena de um outro componente: a vontade humana. Nas definições anteriores, havia apenas capacidade para ver o que há e o que não há. Mas, aqui, encontramos, também, o desejo, a vontade de ver algo, existente ou a ser criado. Isto é o tipicamente humano.

Assim, eu gostaria de propor uma definição para a visão, esse componente básico do planejamento estratégico.

Visão é a descrição de uma situação futura, imaginada e desejada, a qual reflete uma mudança, em relação ao presente, causada pelo ação intencional de uma pessoa ou de uma organização.

A Visão, então, é a expressão de um resultado. Compartilhada com todos aqueles que devem produzi-lo, é ela que os motiva a agirem para torná-la realidade.

Pense nisso. Visão de futuro não é um quadrinho na parede ou um parágrafo no business plan. Visão de futuro é uma imagem dos resultados que toda a organização está comprometida a buscar. Ou não serve para nada.

Leia o seu quadrinho na parede e pergunte-se: se eu não fosse eu, mas um estagiário aqui, com contrato de seis meses, porque essa frase faria alguma diferença para mim? Se não achar uma boa resposta, jogue o quadrinho no lixo. E vá quebrar a cabeça para imaginar um futuro motivador para seu negócio.

Próximo post: Visão - a dimensão ética do negócio

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Definições Estratégicas

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A partir deste momento, vou publicar alguns posts com considerações sobre o que, em planejamento estratégico, se costuma chamar definições estratégicas. São assim chamadas porque, na concepção de uma empresa, de um projeto ou de uma carreira profissional, essas definições constituem o fundamento sobre o qual tudo o mais é decidido e construído. Se forem definições conscientes, expressas e lembradas, tendem a funcionar como a estrutura esqueleto-muscular, mantendo a coesão do corpo, sejam quais forem os movimentos realizados ou as circunstâncias ambientais.

Por definições estratégicas, então, entendo as seguintes:

  • senso de missão - o que estamos fazendo, por que e para quem?
  • visão de futuro - que impacto queremos causar, que mudanças queremos provocar em nós e no ambiente
  • valores | princípios | crenças - o que sabemos e que opinião temos sobre nós, sobre os outros e sobre o mundo à nossa volta
  • definição de negócio - o que vendemos, quem é nosso cliente, o que nosso cliente compra, quem paga pelo que a quem
  • políticas - como gerenciamos relacionamentos, como lidamos com a tecnologia, de que modo nos relacionamos com nossos stakeholders, como fabricamos, como vendemos, como cobramos, como nos comunicamos, etc.

Então, lá vamos nós. Próximo post: Visão - uma imagem do futuro

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O que você tem a ver com a corrupção?

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Esse é o título de uma campanha idealizada pelo Promotor de Justiça catarinense, Affonso Ghizzo Neto. Detalhes da campanha podem ser acompanhados no site www.oquevocetemavercomacorrupcao.com.

Entre outras iniciativas da campanha, aconteceu, entre os dias 05 e 21 de fevereiro de 2010, no Beiramar Shopping, em Florianópolis, uma exposição fotográfica. Na ocasião, recebi mensagem de um amigo, encaminhando um convite feito pelo Jared Windmüller e uma mensagem do cerimonial do Ministério Público catarinense, assinada pelo Promotor Affonso Ghizzo Neto. E fui ao Beiramar Shopping apreciar a exposição de tema tão candente.

À saída do espaço da exposição, uma jovem hostess, um livro de presença e, sobre uma mesinha, uma revista com o título da campanha. Conteúdo: depoimentos de Milton Gonçalves e Salomão Ribas Junior (da saudosa Caçador, onde fui criado), quadrinhos didáticos sobre o tema, com um protagonista chamado Zé Moral, uma apresentação resumida dos objetivos do projeto e a ficha técnica. Tudo bonito, bem escrito e impresso com qualidade.

Daí, cheguei à quarta capa, onde se reproduz uma mensagem de nosso Promotor de Justiça e promotor-mor da campanha, abaixo da qual uma citação que transcrevo:

“O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais. (grifo meu). Adivinhe quem é o autor da pérola? Pergunta mais fácil de responder do que a tradicional “quem descobriu o Brasil?”

Ninguém menos que Bertold (sic) Brecht, citação obrigatória em 125% dos discursos da esquerda, em qualquer lugar deste planeta (dizem as más línguas que havia cartazes com frases dele em passeatas de protesto em Plutão, por ocasião do rebaixamento daquele corpo celeste à segunda divisão dos planetas, ato tido como uma conspiração das forças do capital interplanetário para manter a opressão dus rico contra us pobre (sic) - no caso, planetas grandes vs. planetas pequenos). O que esse texto estava fazendo naquela revista com tão nobres propósitos e produção tão acurada? Eu não diria “só Deus sabe!” porque tenho quase certeza de que o diabo também está informado. Aliás, tenho minhas dúvidas se não foi ele que introduziu a frase perniciosa ali.

O fato, meus caros, é que, de um jeito ou de outro, neste País que acha que o dinheiro público nasce em árvores plantadas pelo governo no subsolo da Casa da Moeda, sempre se dará um jeito de colocar a culpa da corrupção, em última instância (a quarta capa), nas empresas.

Não vou entrar no mérito do quem vem primeiro, se o ovo ou a galinha, se o empresário que lava dinheiro de sonegação fiscal doando-o a políticos e partidos ou se os políticos e partidos que, abandonando sua vocação legítima de representantes do povo, usam seus mandatos públicos para exercer, indevidamente, o papel de lobistas (veja este post). O fato é que o segundo setor, as empresas, únicas organizações sociais competentes para gerar a riqueza que sustenta e faz progredir as nações, acabou sendo acusado de ser o mandante da corrupção, já que o político corrupto é, apenas, seu lacaio.

Talvez devera, então, o Ministério Público oferecer ao Sr. José Roberto Arruda e ao Sr. Paulo Maluf, entre outros, um acordo pelo qual passassem a fazer parte do programa tupiniquim de proteção a testemunhas, desde que revelassem à Justiça quem são os poderosos chefões, nacionais e estrangeiros (mais provavelmente norte-americanos, como é praxe supor, se se perde tempo lendo Bertolt Brecht), aos quais obedeciam e a quem entregavam seus ganhos.

Não existe corrupção sem corruptores e sem corrompidos. A malha de interesses econômicos e políticos é complexa. Empreiteiros desonestos e parlamentares e servidores públicos indecorosos são dois lados da mesma moeda. Banqueiros desonestos, importadores trapaceiros e todo tipo de cidadão que anda à margem da lei, no trânsito, no comércio, na contravenção mais simples, devem ser alvo da disciplina do Estado.

Entretanto, a guerra à corrupção é uma guerra cega, que não escolhe mocinhos naturais e nem bandidos naturais - a guerra à corrupção é uma guerra perdida se seus pressupostos estiverem corrompidos (ideologicamente, inclusive). Não há lugar para Bertolt Brecht e sua visão maniqueísta de mundo, enterrada sob as pedras do muro de Berlim há duas décadas. O empresariado, assim como a classe política e os servidores públicos, não é corrupto nessa condição. Todos são corruptíveis, entretanto, e o Ministério Público deve agir sem pré-concepções, em todos os níveis da sociedade, para preservá-la das ações à margem da lei. E, na medida do possível, todos devemos trabalhar por um contrato social mais justo, criticando o próprio sistema jurídico que permite e, até, incentiva a corrupção, pela burrice de sua concepção e desenvolvimento.

O que temos a ver com a corrupção? Temos culpa, principalmente, quando somos tolos para ler (e dar crédito a) Bertolt Brecht, como se ele soubesse algo a respeito de política, a arte de governar a pólis.

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Gestão de pessoas - isso é possível?

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Devemos reconhecer que, sendo a atividade mais básica do esforço de ser humano, dar nomes não é, certamente, atividade fácil. São dezenas de elementos químicos, combinados em milhões de moléculas. São milhões de espécies animais e vegetais e de corpos celestes. São bilhões de pessoas, em centenas de línguas e dialetos, em milhares de anos de história. Ah, se não nos socorresse o “morto” latim e o grego arcaico, que seria de nós?

As ciências que mais recentemente ganharam método e léxico próprio já estão, também, vendo-se às voltas com a falta de palavras, como é o caso da História. O que virá depois de “pós-moderno”: “pós-contemporâneo”, “pós-antigo”, “pós-novíssimo”, o “fim da história” ou o “neo-histórico”? É, a tarefa não é fácil…

Na administração, levamos séculos para ir do feitor ao capataz e, daí, ao “departamento de pessoal” (ou, como se dizia, às vezes, o “departamento pessoal”, provavelmente por oposição a departamentos… bem, um tanto impessoais). Mas, veio a Teoria das Relações Humanas e, desde Elton Mayo, refletiu-se muito e escreveu-se ainda mais. Palavras e expressões foram eleitas só para serem substituídas logo adiante. Vieram os recursos humanos, ainda comuns na literatura e na linguagem corporativa e acadêmica.

Mais recentemente, entretanto, vimos surgir a gestão de pessoas, expressão moderníssima, que já ganhou posição majoritária nas capas dos livros, nos currículos e nas portas onde já se leu, em eras pré-diluvianas, o tristemente famoso “Departamento de Pessoal”.

O único problema com gestão de pessoas é: não há a menor chance, na vida real, de se fazer gestão de pessoas. Pessoas cooperam, conspiram, obedecem, mandam, lideram, seguem. Mas pessoas não são gerenciáveis, exceto se forem parcial ou totalmente despersonalizadas.

Assim que paramos para pensar, não é difícil concluirmos que, nas relações humanas, tudo o que podemos gerenciar são… bem, as relações humanas. E organizações são exatamente isto:  o conjunto de relações entre pessoas, convergentes para determinados fins, comuns ou sinérgicos.

Gerenciar pessoas, então, não passa de “presunçosa presunção”. Tentar fazê-lo causará enorme dano às organizações (de fato, grande parte dos prejuízos observáveis já decorre exatamente desse erro).

Gerenciar os relacionamentos, por sua vez, é a própria essência da gestão. Sejam os relacionamentos com as pessoas formalmente vinculadas à organização (colaboradores internos e externos, clientes, fornecedores, investidores), sejam aqueles com os demais stakeholders. Essas relações demandam gerenciamento cuidadoso e intencional - cada comunicação, cada norma, cada cláusula contratual, o tom de voz, a resposta adequada e proporcional, a tempestividade, a linguagem apropriada a cada ambiente, tudo demanda proatividade e inteligência.

Mas, se você chamar isso pelo nome errado, vai acabar fazendo a coisa errada e, no fim, obtendo o resultado errado. Basta olhar em volta para notar isso.

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CRM, sim! Mas quem é o cliente?

ética empresarial

A newsletter 1to1 Weekly do Peppers & Rogers Group que recebi hoje traz uma enquete com a seguinte pergunta:

Na maioria dos projetos de implementação de CRM há uma grande dificuldade em convencer os funcionários das empresas a utilizá-lo. Em sua opinião, quais os fatores mais importantes a se trabalhar para que as pessoas percebam o benefício do CRM?

Eu sou sócio de uma empresa que desenvolve uma plataforma tecnológica para gestão de oportunidades de negócios baseadas em relacionamentos. E, espero, tenho aprendido alguma coisa, ao longo de 30 anos de vida profissional, sobre porque as coisas acontecem - ou não - nas organizações. Então, fiz o seguinte: respondi à enquete informando que a responderia em meu blog e autorizando-os a utilizar livremente o que eu vier a escrever, desde que citem a fonte. Assim, fico livre para desenvolver o assunto, que me interessa, sem as limitações de espaço em que as respostas a uma enquete devem enquadrar-se, por sua natureza. Vamos, então, por partes.

Colaboradores que não colaboram com a organização que lhes paga o salário têm motivos para isso.

Seus objetivos pessoais não estão alinhados com os da organização…

porque não conhecem os fundamentos estratégicos da organização (visão de futuro, missão, definição do negócio, crenças, princípios e valores que subjazem às decisões, políticas que norteiam os processos)

    • porque a organização não os comunicou adequadamente - papel da direção e do corpo gerencial, muito ocupados para exercerem sua função precípua de liderar pessoas pela palavra;
    • porque a organização não os definiu adequadamente - seja porque os líderes não entendem nada de gestão empresarial ou seja porque não entendem nada do significado, utilidade e poder das palavras, achando que “fundamentos estratégicos” é a mesma coisa que “propaganda” ou “discurso motivacional”;
    • porque a organização está mentindo sistematicamente e é impossível confiar no que se ouve - afirma que “o cliente está em primeiro lugar”, publica uma declaração de visão auto-centrada (”queremos ser reconhecidos como a melhor fabricante de sportswear do Triângulo das Bermudas“) e seus gerentes orientam os funcionários a não aceitar devolução de produtos com defeito sem a apresentação da embalagem original;

porque não concordam com os fundamentos estratégicos da organização

    • o pessoal da “gestão de pessoas” não verificou esse alinhamento no processo de contratação, porque estava ocupado preenchendo formulários padronizados em vez de focado em gerenciar relacionamentos (a propósito, é uma baita impropriedade falar de “gestão de pessoas” - pessoas não podem ser gerenciadas; a única coisa que se pode gerenciar são os relacionamentos);
    • porque não entenderam a linguagem ou não conseguem relacionar os princípios com suas implicações práticas e suas lideranças não estão investindo tempo no processo de esclarecer e convencer.

Colaboradores que não colaboram com a implementação de CRM (customer relationships management) têm motivos para isso.

  • A organização trata o contrato de trabalho como transação e não como relacionamento, de modo que o colaborador não sabe, em sua própria experiência, o que é “relationship management“.
  • A organização chama “e-mail marketing” ou “SMS marketing” de CRM e espera que seus colaboradores não se envergonhem de participar dessa farsa; acontece que o trabalhador do conhecimento não aprendeu a diferenciar SPAM de e-mail marketing baseado em gestão de relacionamentos em cursinhos contratados pela organização que o emprega neste momento - essa diferenciação, ele aprendeu a  fazê-la em sua própria caixa de entrada de e-mails, à custa de muita raiva e irritação.
  • A organização discursa sobre “transações no contexto de relacionamentos” mas, na prática, só investe em relacionamentos atrelados a transações. O colaborador resiste em participar da farsa.
  • O colaborador percebe que o programa de CRM do supermercado X, consiste num cartão de fidelidade baseada em brindes, cujo objetivo não é gerenciar a relação com os clientes mas entender o comportamento do consumidor com base no tíquete de caixa identificado pelo cartão pontuador, com o objetivo de gerenciar a relação com fornecedores, dispondo e precificando espaços de gôndola de acordo com o comportamento típico dos compradores. E o colaborador não alinhado aos objetivos da organização se solidariza com o consumidor, porque ele também é consumidor.

Colaboradores e empresas que não co-laboram, provavelmente estão laborando sob a influência de uma ética baseada no conflito entre capital e trabalho.

  • A motivação empresarial típica de empreendedores iniciantes tem duas facetas: “ganhar dinheiro” e “não ter patrão”. Qualquer coisa construída sobre essa base não poderá conduzir a colaboração de qualquer tipo.
  • “Objetivo social da empresa” é só uma das cláusulas do contrato social ou do estatuto, geralmente em linguagem jurídica (”objeto social”) e não tem qualquer poder normativo na cultura da organização.
  • O investimento atraído e o lucro auferido, que traduzem a percepção, por parte do mercado (investidores e clientes), do valor da contribuição da organização para a sociedade, têm sido descritos como “ganhar dinheiro” em vez de, corretamente, serem reconhecidos como passivos devidos pela organização à sociedade: o capital investido pertence ao investidor e deve ser remunerado de modo competitivo para manter seu fluxo em direção ao negócio, e o excedente de ativos produzido a partir do total de passivos aplicados é a fonte onde a sociedade se alimenta para manter sua dinâmica vital, o progresso material que almeja e a capacidade de sustentar a atual geração e poupar para as futuras.

Quando o objetivo da empresa é “ganhar dinheiro”, o do empregado também é. E esse é um objetivo que produz soma zero e justifica a ética marxista, que presume que alguém só pode tornar-se rico se alguém empobrecer proporcionalmente. Daí, o fato de o marxismo assentar-se sobre um conflito necessário entre capital e trabalho, entre empresas e trabalhadores. Mas o capitalismo presume soma positiva (admite soma de resultado negativo, mas isso deve afetar tanto um quanto o outro), que deve motivar a cooperação entre capital e trabalho para gerar riqueza de modo sustentável e equilibrado em termos dos benefícios para cada grupo de atores econômicos.

CRM não é ferramenta de comunicação de marketing - CRM é uma cultura que entende a atividade econômica e as transações que o compõem como expressões do relacionamento entre as organizações e seus stakeholders. CRM é gestão de relacionamento com os clientes. E clientes são todos aqueles a quem a organização serve: colaboradores, acionistas, prestadores de serviços, fornecedores, parceiros e qualquer um que seja afetado por sua atuação. Não sendo assim, fica evidente porque funcionários boicotam implementações de processos e tecnologias novos, chamem-se CRM, ERP, BSC ou qualquer outra sigla dessas.

Alinhamento exige comunicação honesta, fundamentos estratégicos claros e consistentes com estratégias, processos e políticas, e gestão de relacionamentos exaustiva.


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Por que falta emprego?

gestão de expectativas, ética do trabalho

Devo confessar que poucas vezes na vida encontrei tanto estímulo para escrever como na coluna do Max Gehringer a que me referi no primeiro post sobre esse assunto. A segunda pergunta que ele respondeu foi de alguém chamado Grégor, que pedia uma explicação para o fato de, seis meses depois da formatura, apenas 3, entre 80 colegas, terem conseguido emprego - o Max foi ótimo, afirmando o óbvio: há poucas vagas, ora bolas. O que você acha que as empresas deviam fazer? Aumentar o número de vagas cada vez que uma turma de formandos jogasse seus capelos para o alto em algum auditório bonitinho?

600px-Education_-_Grad_Hat.svgCapelo não é crachá nem carteira funcional.

Mas eu diria ao Grégor (ou, mais precisamente, aos leitores do blog de atitude) que essa pergunta que ele fez esconde (ou revela) um sério problema de atitude profissional. Será que vocês, assim como o Grégor, acham que emprego é uma espécie de prêmio que se concede a alguém por terminar um curso profissionalizante, universitário ou não? Temos, então, um sério problema de gestão de expectativas a resolver aqui.

Quando nos matriculamos em um curso (do maternal ao curso para casais gestantes oferecido pela maternidade local, passando pelo cursinho pré-vestibular, pela classe de catecúmenos e pelo pós-doutorado em astrofísica aplicada à gestão de escolas de samba), não importa o que a propaganda diga, a única promessa válida é a que corresponde à natureza dos cursos: conhecimento(s), habilidade(s) e um certificado ou diploma, além do respectivo recibo pelo pagamento das mensalidades ou anuidades. A consequência natural de um curso não é um emprego, não importa o que lhe tenham dito.

A pergunta do Grégor é absurda. É quase como se ele perguntasse: porque, chovendo como chove na região amazônica, vende-se tão poucos guarda-chuvas ali, comparativamente com São Paulo? É “elementar, meu caro Watson“: guarda-chuvas não são produzidos em relação com a precipitação pluviométrica, mas em relação com a população que não quer molhar-se. E são 40 milhões no estado de São Paulo, contra 15 milhões em toda a região norte do país (incluindo um bocado de tribos indígenas que não ligam a mínima para molhar-se ou não).

Emprego é uma demanda por competências (conhecimentos, habilidades e atitudes) tanto mais valiosas quanto mais raras. Então, como alguém consegue diferenciar-se, tornando rara e valiosa a sua competência? Como ser um dos 3 numa turma de 80? Atitude, meus caros: a única, das três variáveis, que não pode ser transformada em commodity.

Os 80 tiveram acesso ao mesmo volume de informação e a oportunidades similares para desenvolver suas habilidades. O Grégor, entretanto, formou-se sem proficiência na língua pátria, provavelmente uma deficiência comum aos outros 76 desempregados (sem falar de outras possibilidades, de arrogância a mau hálito, passando por chegar atrasado à entrevista e colocar a culpa nos semáforos, aquelas inocentes luzes coloridas que enfeitam nossa vida urbana e sabem exatamente a hora de agir e a hora de dar oportunidade às colegas).

Estude para aprender. Aliás, estude para aprender a aprender. E quando um provável empregador lhe perguntar quais são seus principais defeitos, não responda: “eu sou perfeccionista”. Ninguém é suficientemente perfeccionista para fazer suficientemente bem o que se espera de alguém que tem um emprego: gerar valor para o cliente, produzir a riqueza da nação. Há um bocado de vagas não preenchidas no mercado, inclusive para empresários (porque muito empreendedor iludido quis ser “empresário” pelo motivo errado: “ganhar dinheiro” ou “não ter patrão”). Ainda falarei mais sobre isso.

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MBA ou Mestrado?

ética empresarial

Eu estava tomando café numa padaria outro dia e comecei a folhear uma revista Época, de 25.06.07, disponível para leitura lá. Primeira página em que abri: coluna Nossa Carreira, do Max Gehringer. Ele responde a 4 perguntas de leitores e eu vou reforçar uma e oferecer respostas alternativas a 3 delas, que denotam atitude pouco profissional das pessoas que as enviaram. A primeira, assunto deste post, é: “Eu tinha planos de fazer um MBA, mas dois amigos já me disseram que ‘MBA, hoje em dia, qualquer um faz’. É verdade? Seria melhor um mestrado?” feita por alguém identificado como Sílvia Regina.

Em primeiro lugar, competência se constrói sobre conhecimento, habilidades atitude. A Sílvia demonstra falta de conhecimento (ela não sabe a diferença entre MBA e Mestrado) e certa tendência a buscar “consultorias” mais ou menos qualificadas (o Max, mas, também, “dois amigos”), sem definir antes seus objetivos profissionais.

Imagine alguém chegar a um posto policial no centro de Floripa e perguntar ao policial: Devo ou não pegar a Via Expressa? Amigos me disseram que está congestionada. É verdade? Seria melhor pegar a SC 401?” Se você não conhece Florianópolis, a Via Expressa é a saída da cidade em direção à BR 101 e ao interior. A SC 401 vai da região central em direção ao norte da ilha de Santa Catarina, região dos balneários de Canasvieiras e Jurerê, por exemplo. Ou seja, se o policial ficasse irritado com a pergunta boba estaria coberto de razão.

MBAs (Master on Business Administration) são chamados, também, mestrados executivos. Seu objetivo é oferecer uma pós-graduação focada em gestão de negócios para profissionais que atuam em nível executivo. Mestrado, por sua vez, é uma pós-graduação strictu sensu, cujo objetivo básico é a formação de pesquisadores e docentes (o passo seguinte é o Doutorado). Duas carreiras bastante distintas.

O foco do profissional excelente não deve estar na concorrência, mas na geração de valor para o cliente. A Sílvia Regina , assim como todo profissional bem qualificado, deveria concentrar-se em perguntar: “Quem é o cliente ao qual eu posso e quero oferecer minha contribuição profissional? Quais são suas necessidades e desejos? Como eu posso gerar valor para ele?

Formular a pergunta e respondê-la é responsabilidade de todo profissional excelente. Com a resposta em mãos, a gestão de sua carreira, que também é sua responsabilidade, fica bem mais fácil, e as respostas sobre os melhores caminhos para chegar lá tornam-se viáveis, para quem estiver disposto a ajudá-lo.

Defina o objetivo (gerar valor para o cliente é sempre a melhor meta) e, então, busque informações sobre o melhor caminho para chegar lá. Se pudermos ajudá-lo(a), estamos à disposição.

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