O Mario, a quem me referi no post anterior, ainda escreveu-me o seguinte:
“Outro dia li um anúncio que achei muito mal bolado. Dizia que o imóvel, aqui em Florianópolis, poderia ser usado tanto para moradia quanto para investimento. Agora, para que serve um imóvel residencial senão para morar? Deveria ser justamente o fato de gente querendo morar tornar o imóvel um bom investimento também. Mas estão transformando os imóveis quase que em papéis, como ações. Se não serve para morar, não serve como investimento também. Imagine a situação absurda, de se dar ao trabalho de construir um prédio, com apartamentos, cuja planta interna impossibilita a moradia, restando ao imóvel apenas a questão de investimento.“
Ao Mario e a todos nós, fazem falta as tais aulas de introdução à contabilidade no ensino fundamental. Porque, no fim das contas, tudo depende do Balanço Patrimonial. Acontece que, sim, o valor de uma casa ou apartamento reside em sua utilidade - em geral, abrigar uma família que ali more. Mas esse valor pode ser maior ou menor, dependendo de quem mora nele - se o dono ou um inquilino. Vamos ver como isso se dá, considerando que a compra do imóvel foi à vista e sem levar em conta os impactos fiscais, que são acidentais (basta-nos o conhecimento proporcionado pela teoria contábil agora):
- se o dono do imóvel escolher residir nele, seu balanço patrimonial conterá os seguintes lançamentos:
- na coluna dos ativos, a débito da conta Imobilizado, o valor de compra, diminuído, daí para a frente, pelas sucessivas depreciações (eventualmente, esse valor poderia ser recomposto, para acompanhar a valorização ou desvalorização, obtidas ao verificar-se a expectativa de preço do imóvel, no caso de ser novamente vendido);
- na coluna dos ativos, a crédito da conta Bancos, o valor desembolsado na compra do imóvel;
- nesse caso, a geração de riqueza só será possível pela eventual valorização do imóvel por uma causa externa e acidental - a construção de um hipermercado ou uma cidade universitária a 500 metros dele, por ex. - e exigiria a venda para tornar-se efetiva.
- se o dono do imóvel escolher adquiri-lo como investimento, seu balanço patrimonial conterá os seguintes lançamentos:
- na coluna dos ativos, a débito da conta Imobilizado, o valor de compra (valor de mercado), diminuído, daí para a frente, pelas sucessivas depreciações (eventualmente, esse valor poderia ser recomposto, para acompanhar a valorização ou desvalorização, obtidas ao verificar-se a expectativa de preço do imóvel, no caso de ser novamente vendido);
- na coluna dos ativos, o lançamento, a crédito da conta Bancos, do valor de compra do imóvel; e (eis a diferença)
- na coluna dos ativos, o lançamento, a débito da conta Bancos, do valor recebido a título de aluguel, da família que nele resida ou da empresa que o mantenha para acomodar executivos em trânsito ou para ali estabelecer seu escritório;
- nesse caso, a geração de riqueza incluirá a geração de caixa, para o proprietário do imóvel, proveniente do aluguel e não só de uma eventual valorização do imóvel para venda, como na situação anterior.
Fique claro: nos dois casos a geração de riqueza não está completamente garantida. Na primeira, a ação do proprietário terá menos influência na criação de valor, dependendo mais de mudanças no ambiente. Na segunda, a ação gerencial aplicada sobre os contratos de locação pode criar ou destruir valor, de acordo com sua qualidade. Em ambos os casos, o valor original estará baseado na capacidade maior ou menor de oferecer acolhimento a quem precisa morar. Mas, no primeiro caso, esse valor será consumido pelo morador-proprietário, enquanto no segundo caso esse valor será investido na geração de caixa através de contratos de aluguel.
Vale o mesmo para automóveis: um carro de família é bem de consumo, um “placa vermelha” é bem de capital. Ambos têm valor básico por proporcionar mobilidade a pessoas e cargas. O segundo tem um valor adicional que é proporcionar geração de caixa a seu proprietário.
O grande cuidado que se deve ter nesse assunto todo é verificar se a riqueza sendo gerada é sustentável ou se é ilusória - embora, no fim, toda geração ou destruição de riqueza esteja baseada em percepção psicológica de valor - a contabilidade pode registrar essas variações de valor no tempo, mas não pode (nem ninguém pode) assegurar a valorização, a desvalorização ou a simples manutenção das riquezas.
Por isso não é sábio basear a própria vida em valores materiais, pois eles são voláteis - vêm e vão tão facilmente. Razão pela qual pessoas e empresas devem condicionar seus esforços de geração de riquezas a sua relação com valores morais e espirituais permanentes. Falaremos mais sobre isso em outro post.