Visualizando arquivos de janeiro, 2009.

Gerar riqueza é possível? II

ética empresarial

O Mario, a quem me referi no post anterior, ainda escreveu-me o seguinte:

Outro dia li um anúncio que achei muito mal bolado. Dizia que o imóvel, aqui em Florianópolis, poderia ser usado tanto para moradia quanto para investimento. Agora, para que serve um imóvel residencial senão para morar? Deveria ser justamente o fato de gente querendo morar tornar o imóvel um bom investimento também. Mas estão transformando os imóveis quase que em papéis, como ações. Se não serve para morar, não serve como investimento também. Imagine a situação absurda, de se dar ao trabalho de construir um prédio, com apartamentos, cuja planta interna impossibilita a moradia, restando ao imóvel apenas a questão de investimento.

Ao Mario e a todos nós, fazem falta as tais aulas de introdução à contabilidade no ensino fundamental. Porque, no fim das contas, tudo depende do Balanço Patrimonial. Acontece que, sim, o valor de uma casa ou apartamento reside em sua utilidade - em geral, abrigar uma família que ali more. Mas esse valor pode ser maior ou menor, dependendo de quem mora nele - se o dono ou um inquilino. Vamos ver como isso se dá, considerando que a compra do imóvel foi à vista e sem levar em conta os impactos fiscais, que são acidentais (basta-nos o conhecimento proporcionado pela teoria contábil agora):

  • se o dono do imóvel escolher residir nele, seu balanço patrimonial conterá os seguintes lançamentos:
    • na coluna dos ativos, a débito da conta Imobilizado, o valor de compra, diminuído, daí para a frente, pelas sucessivas depreciações (eventualmente, esse valor poderia ser recomposto, para acompanhar a valorização ou desvalorização, obtidas ao verificar-se a expectativa de preço do imóvel, no caso de ser novamente vendido);
    • na coluna dos ativos, a crédito da conta Bancos, o valor desembolsado na compra do imóvel;
      • nesse caso, a geração de riqueza só será possível pela eventual valorização do imóvel por uma causa externa e acidental - a construção de um hipermercado ou uma cidade universitária a 500 metros dele, por ex. - e exigiria a venda para tornar-se efetiva.
  • se o dono do imóvel escolher adquiri-lo como investimento, seu balanço patrimonial conterá os seguintes lançamentos:
    • na coluna dos ativos, a débito da conta Imobilizado, o valor de compra (valor de mercado), diminuído, daí para a frente, pelas sucessivas depreciações (eventualmente, esse valor poderia ser recomposto, para acompanhar a valorização ou desvalorização, obtidas ao verificar-se a expectativa de preço do imóvel, no caso de ser novamente vendido);
    • na coluna dos ativos, o lançamento, a crédito da conta Bancos, do valor de compra do imóvel; e (eis a diferença)
    • na coluna dos ativos, o lançamento, a débito da conta Bancos, do valor recebido a título de aluguel, da família que nele resida ou da empresa que o mantenha para acomodar executivos em trânsito ou para ali estabelecer seu escritório;
      • nesse caso, a geração de riqueza incluirá a geração de caixa, para o proprietário do imóvel, proveniente do aluguel e não só de uma eventual valorização do imóvel para venda, como na situação anterior.

Fique claro: nos dois casos a geração de riqueza não está completamente garantida. Na primeira, a ação do proprietário terá menos influência na criação de valor, dependendo mais de mudanças no ambiente. Na segunda, a ação gerencial aplicada sobre os contratos de locação pode criar ou destruir valor, de acordo com sua qualidade. Em ambos os casos, o valor original estará baseado na capacidade maior ou menor de oferecer acolhimento a quem precisa morar. Mas, no primeiro caso, esse valor será consumido pelo morador-proprietário, enquanto no segundo caso esse valor será investido na geração de caixa através de contratos de aluguel.

Vale o mesmo para automóveis: um carro de família é bem de consumo, um “placa vermelha” é bem de capital. Ambos têm valor básico por proporcionar mobilidade a pessoas e cargas. O segundo tem um valor adicional que é proporcionar geração de caixa a seu proprietário.

O grande cuidado que se deve ter nesse assunto todo é verificar se a riqueza sendo gerada é sustentável ou se é ilusória - embora, no fim, toda geração ou destruição de riqueza esteja baseada em percepção psicológica de valor - a contabilidade pode registrar essas variações de valor no tempo, mas não pode (nem ninguém pode) assegurar a valorização, a desvalorização ou a simples manutenção das riquezas.

Por isso não é sábio basear a própria vida em valores materiais, pois eles são voláteis - vêm e vão tão facilmente. Razão pela qual pessoas e empresas devem condicionar seus esforços de geração de riquezas a sua relação com valores morais e espirituais permanentes. Falaremos mais sobre isso em outro post.

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Gerar riqueza é possível? I

ética empresarial

O Mario é um jovem empresário do setor de tecnologia (software para automação industrial). Ele e seu sócio Fábio contrataram meus serviços de consultoria recentemente. E assistiram à palestra que proferi na Confraria Empresarial em agosto passado. Agora, o Mario escreveu-me, relatando sua dúvida: é possível gerar riqueza?

Em sua mensagem, há coisas que eu devo manter em vista, enquanto escrevo uma resposta:

  1. ele, em algum grau, relaciona aumento de riqueza a aumento da disponibilidade de recursos naturais
  2. ele também relaciona a geração de riqueza à especulação, geradora de bolhas, que canaliza recursos financeiros para certo setor, cujos preços são inflados artificialmente
  3. ele afirmou ter dificuldades com esse assunto por insuficiência de conhecimentos em economia

Em primeiro lugar, devo afirmar que, em consonância com o que disse em minha palestra, geração de riqueza é um conceito contábil, muito antes de a ciência econômica ter razão para ocupar-se dele. O fato de alguém terminar um pós-doutorado em qualquer área sem jamais ter sido introduzido a qualquer rudimento da teoria econômica, parece-me bem aceitável. O problema está em que seja possível (o mais provável, de fato) concluir o ensino fundamental sem conhecer o conceito de balanço patrimonial.

Em segundo lugar, riqueza é uma função da atividade humana (leia-se, ação inteligente) e não do estoque de recursos naturais. Não tem nada a ver com petróleo, água, urânio ou ouro. Tem de ver com genialidade e esforço humanos combinados. Não tem a ver com o capital inicial, nem com todos os passivos acumulados ao longo do tempo: geração de riquezas é a atividade humana que transforma capitais de qualquer tipo em ativos de valor superior. Geração de riquezas é função da inteligência, não dos estoques de matéria-prima enterrados sob o pré-sal.

Em terceiro lugar, geração de riqueza é sinônimo de geração de valor. É um fenômeno psicológico, não físico. Não tem a ver com uma (im)possível expansão do universo, mas com a percepção que temos de  cada uma de suas manifestações. Geração de riqueza, por isso, pode e deve ser qualificada segundo uma avaliação de sua sustentabilidade - porque o mesmo homem que atribui a um barril de uma meleca pegajosa e negra o valor de US$ 150 numa semana, pode, na semana seguinte, reduzir esse valor para US$ 50 ou expandi-lo para US$ 200. O desafio na geração de valor é a sustentabilidade no longo prazo. Qualquer idiota pode inflar o valor das ações da Petrobrás, falando sobre reservas de petróleo sob o pré-sal ou de água no subsolo de Marte no noticiário noturno. Gerar riqueza sustentável no longo prazo a partir dessas reservas e suas potencialidades requer a soma de muitos QIs superiores e organizações empresariais consistentemente construídas e mantidas ao longo desse tempo.

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Para que serve sua empresa? - a palestra…

ética empresarial

Noutro post, referi-me à palestra que proferi na Confraria Empresarial em 28.08.08. Num comment, o André, professor de Educação Física e empreendedor na área, perguntou sobre a possibilidade de ser disponibilizada a palestra toda aqui. Bem, ei-la: Para que serve sua empresa?.

Naturalmente, se alguém, lendo a apresentação, manifestar interesse por uma discussão mais ampla de algum ponto, isto pode gerar um novo post. Estou igualmente disposto a repetir essa palestra para grupos que se interessem pelo assunto (estou dizendo isso porque algumas pessoas já manifestaram, em outros momentos, curiosidade a respeito dessa disponibilidade).

É preciso dizer, entretanto, que boa parte do que esse blog é deve-se a essa palestra - e ela também resume alguns dos fundamentos de minhas crenças  em administração. Ou seja, não será difícil, para alguém que ouviu a palestra ou refletiu nos enunciados registrados na apresentação, identificar esses pontos em meus posts recentes ou nos futuros.

Até o próximo.

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Ano novo e… blog novo!

inovação, ética empresarial

Finalmente, estou lançando este blog. Já sai do forno com 3 posts. Evitei de publicá-lo até aqui, porque queria que isto só ocorresse depois que eu mesmo estivesse completamente consciente dos objetivos a serem perseguidos aqui e completamente à vontade com a ferramenta, que era novidade para mim.

Preciso agradecer a dois amigos, especialmente, que tiveram e seguem desempenhando papel significativo neste empreendimento: a Lígia Fascioni, que fez uma avaliação prévia dos elementos do lay out, nome e temática que remetem a minha própria identidade profissional, que ela havia analisado em workshop e num belo relatório há algum tempo (um serviço que eu recomendo, enfaticamente, a qualquer profissional que leve a sério sua imagem e comunicação com o mercado); e o Cristiano Chaussard, que, a partir de nosso encontro na Confraria Empresarial em agosto passado, tornou-se grande amigo, parceiro intelectual e parceiro de negócios - ele se responsabilizou por fornecer a infra-estrutura para o blog e treinar-me no uso das ferramentas adequadas; e nossas conversas continuam importantes para formar minha compreensão do que deveria ser essa iniciativa.

Nenhum dos dois pode ser responsabilizado pelo que vocês verão e lerão aqui, mas isto tornou-se possível com a ajuda deles (ou seja, eles são culpados, sim, de eu ter conseguido). E, tendo dito isto, vamos ao assunto do post…

O ano de 2009 começou e traz algumas implicações, pessoais e profissionais. Completei 49 anos de vida ontem (nada de “parabéns a você”, por favor). Isto significa que estou a 12 meses do cinquentenário (já sem trema, sinal dos tempos). De uma expectativa de vida de 75 anos, bem possível e provável, 2/3 terão passado.

Levei o primeiro tempo para ser formado minimamente - a responsabilidade, naquele tempo, ficava com meus pais e mestres.

O segundo tempo… bem, foi o tempo de, em consórcio com a moça por quem me apaixonei aos 18, formar minimamente os três sucessores, construir uma carreira familiar e profissional, descobrir e definir minha lista de stakeholders e começar a responsabilizar-me pelo passivo - seja aquele resultante de decisões de investimento e custeio, seja aquele resultante de má gestão.

Agora, este é o ano de pensar no plano estratégico do terceiro tempo: ajuste da visão, adequação da missão, atualização das definições do negócio, revisão do posicionamento da marca e dos relacionamentos com stakeholders, sucessão e, last but not least, encarar o sentido pleno de accountability - encarar o Último Cliente, Aquele que tem o direito e poder para definir o momento em que devo deixar o mercado e, finalmente, dedicar-me integralmente, ao Grande Projeto Político que coroará minha carreira. Enquanto isso, segue a peregrinação…

Sobre as novidades, é bom que se diga que “ano novo” é uma convenção muito útil, pela qual todos devemos estar gratos, por causa da oportunidade, tão necessária, de revisar periodicamente o desempenho e o planejamento. Mas não é mais que uma convenção - não é novo, de fato, e não devemos imaginar, na vida pessoal e na vida corporativa, que seja possível “começar do zero”.  Talvez fosse bom, do ponto de vista do passivo, especialmente se não pudermos contar com o “perdão da dívida”; por isso, o fluxo de caixa projetado talvez não permita relaxar; mas certamente é bom que possamos começar o novo período convencional ainda de posse dos ativos acumulados nos períodos anteriores: capital humano (relacionamentos), capital intelectual (conhecimento) e brand capital (a reputação desenvolvida em anos de experiência no mercado).

“Blog novo” é outra abstração que precisa ser bem entendida. Não é simplesmente que o ONOMA tenha surgido neste momento. Isto faria da novidade uma velharia em pouquíssimo tempo. É que o próprio conceito de blog remete a algo que se renova e atualiza permanentemente (em termos da provisao de conteúdo) e, por ser interativo, cria, naturalmente, as condições para gerar novidade a cada interação.

Mas, “novo”, também, é um termo cuja conotação eu gostaria de precisar, quando o uso. Não estou me referindo àquela originalidade absoluta que remete ao momento ímpar da Criação. É, antes, o atributo do que permanece em movimento, de modo que não pode ser confundido, num momento, com o que era no momento precedente. Espero que, seja pelas reflexões solitárias cujo resultado eu venha a postar aqui, seja pelos comments apostos por quem lê, esse blog se torne uma expressão do movimento em direção à sabedoria que nunca envelhece.

Andiamo, poi…

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