Empresa é uma organização de pessoas com uma visão compartilhada de contribuição socialmente legítima, definida em termos de desempenho econômico.
Prestando consultoria a empresas durante os últimos anos, preocupei-me em ter uma definição de empresa que funcionasse como referência para meu trabalho. Assim como espero que um advogado tenha uma posição clara a respeito do direito e que um arquiteto tenha bem resolvido, em sua mente, o conceito de edifício, eu acho que não poderia prestar um serviço decente se não soubesse ou se não soubesse definir (o que é a mesma coisa, penso) o que é uma empresa. E a definição acima, sintetizada a partir de minhas leituras do decano da administração, já falecido, Peter Drucker, parece-me suficientemente abrangente e sucinta ao mesmo tempo. Cada parte da definição é rica em implicações a que empresários e administradores devem estar atentos. Veja algumas delas:
Organização de pessoas:
- uma empresa é, basicamente, uma estrutura relacional humana e não deve ser confundida com seus ativos, sejam quais forem;
- gestão de pessoas é gestão das relações organizacionais entre pessoas - ou é uma aberração ética, paternalista e autoritária;
- organização significa que uma determinada finalidade foi aplicada às relações entre as pessoas, definindo-as e permitindo seu gerenciamento.
Visão compartilhada:
- empreendedorismo é liderança, a capacidade de comunicar uma visão que comprometa pessoas com uma causa comum - isso é a relação na base das organizações;
- uma empresa deriva da iniciativa privada ou da iniciativa pública, do espírito empreendedor que projeta visões de futuro motivadoras e agregadoras de pessoas numa comunidade;
- emprego é um termo da economia, aplicado a recursos; compromisso é a palavra que define a relação de uma pessoa com uma organização, na administração; use a palavra errada e você terá uma relação errada (as linguagens das disciplinas científicas não são intercambiáveis - estudantes universitários deveriam aprender isso no primeiro mês de aulas, mas…);
- visão não é tarefa - o que a empresa faz deve ser consequência de para onde ela está indo; se se inverte essa ordem, temos, rapidamente, um problema de identidade e sobrevivência.
Contribuição socialmente legítima:
- toda empresa é uma concessão pública e existe por causa do interesse público
- o governo, representante oficial do interesse público, emite alvarás;
- o cliente, unidade básica do mercado, compra produtos e serviços, pagando por eles um preço que sustenta sua produção e distribuição;
- uma contribuição social não legitimada pela sociedade através de seus órgãos oficiais gera quadrilhas, não empresas (a arte de administrar não pode, por si só, distinguir umas das outras - a ética e o direito é que o fazem);
- uma contribuição social não legitimada pela sociedade através dos mecanismos do mercado (preços, crédito, etc.) gera falências.
Desempenho econômico:
- organizações do primeiro setor (governo) e do terceiro setor (sociedade civil) também têm desempenho econômico, mas suas contribuições não são definidas por ele;
- desempenho econômico é, fundamentalmente, geração de riqueza - essa é a razão fundamental da existência de empresas;
- desempenho econômico é a responsabilidade das empresas - daí, a relevância da expressão accountability;
- desempenho econômico é mensurável e deve ser medido - daí, a relevância da contabilidade;
- desempenho econômico inclui lucratividade, rentabilidade e sustentabilidade.
Pessoas de negócios e da mídia, políticos, acadêmicos e cidadãos comuns fariam bem em voltar a esses conceitos básicos, tanto para a tomada de decisões quanto para a descrição adequada da realidade, inclusive as crises deflagradas pela ignorância ou desprezo dessas definições.