Declaração de Visão: o que é isto?

ética empresarial

Como em quase tudo na vida, há controvérsias. E, eu devo dizer, ando cansado de ler e ouvir pessoas que não ligam a mínima para o que dizem ou escrevem, de modo que podem afirmar tão fortemente um conceito num momento e desmontá-lo no parágrafo seguinte. Vou dar um exemplo.

Elsevier-Campus publicou, este ano, um livro chamado As cinco perguntas essenciais que você sempre deverá fazer sobre sua empresa. O conteúdo do livro é atribuído a Peter Drucker, Jim Collins, Philip Kotler, James Kouzes, Judith Rodin, V. Kasturi Rangan e Frances Hesselbein (para detalhes a respeito de como isto foi possível, melhor conversar com os editores - parece muito com o time do Real Madrid: só estrelas!).

Nas páginas 99 e 100, há um glossário intitulado Definição de termos. O décimo termo da lista é Resultados e uma das afirmações oferecidas é a seguinte, muita enfatizada por Peter Drucker, embora devesse ser óbvia (infelizmente, o óbvio sempre precisa ser lembrado): “Os resultados estão sempre fora da organização.” Ok. Isto fecha com a definição de empresa que vimos aqui há algum tempo, baseada no pensamento do próprio Drucker, que fala de contribuição social como o conteúdo da visão compartilhada que define uma organização.

Entretanto, o tal glossário, após comentar o verbete Valor do cliente, encerra-se com uma definição de Visão. Maravilhe-se: “Um panorama do futuro desejado da organização“. Como assim? Por que os resultados devem ser produzidos fora da organização, mas a visão, que é o fator mais importante de motivação para alcançar resultados, está focada na própria organização?

Tente achar uma definição de Visão que não coloque o status futuro da organização como seu conteúdo central e você ganha um pirulito. Quase como padrão, você encontrará declarações de visão com a seguinte formulação: “Ser uma empresa…“. Dá licença! Isso é como um corretor de imóveis argumentando com o jovem casal interessado: “Olhem, que maravilha de apartamento eu lhes estou oferecendo! Confortável, moderno, próximo de shoppings, escolas, maternidades, parques urbanos, com 3 vagas de garagem, na maior avenida da cidade, com vista para o mar e o poente.. Pensem nessa imagem do futuro: eu e minha mulher, em nossa casa de campo, na serra, rodeados de netos, tomando chimarrão e criando galinhas, plantando verduras - o nosso sonho!”. O amor não é lindo? Mas o que tem a ver o sonho dele e de sua esposa com sua oferta ao casal de prospects? E porque sua visão de futuro interessaria a quem quer que seja, além de a si mesmo e aos seus?

O problema é muitas empresas estão fazendo exatamente isso. Dizem que seu foco está no cliente, que são orientadas ao mercado, que são socialmente responsáveis. Mas seus sonhos, o que as motiva, os resultados que perseguem, têm a ver consigo mesmas e não com a sociedade a quem dizem servir. Qualquer que seja a causa básica desse desalinhamento, ele não constitui um testemunho muito lisonjeiro a respeito do caráter dessas organizações.

Sugiro, então, as seguintes alternativas:

  • VISÃO é a declaração, por parte de uma organização, do que deverá ser, no futuro, a sociedade à qual ela oferece sua contribuição, como resultado dessa contribuição.

Empresas responsáveis gerando riqueza sustentável. Esta é a visão que projeto no futuro de nosso mercado e me motiva a ser consultor de empresas e conselheiro de empresários, profissionais e estudantes há quase uma década.

Ou,

  • VISÃO é a afirmação, por parte de uma organização, dos resultados que deseja produzir, com sua contribuição, no ambiente social em que atua, e que justifica o esforço e custos repartidos com todos os que com ela colaboram, de modo a mantê-los motivados e comprometidos.

“A sorte, que hoje nos traiu, sorrirá para nós amanhã. Estou saindo de Roma. Aqueles que quiserem continuar a guerra contra o estrangeiro, venham comigo. Não ofereço pagamento, quartel ou comida. Ofereço somente fome, sede, marchas forçadas, batalhas e morte. Os que amam este país com seu coração, e não com seus lábios apenas, sigam-me.”

Essa era a visão que Giuseppe Garibaldi, o marido de Anita, ofereceu a seus homens, após uma derrota importante  e tendo recusado oferta de salvo-conduto que garantiria sua segurança e a de sua esposa. Suficiente motivação para 3900 homens, que o seguiram para enfrentar 55 mil soldados de 4 exércitos, numa campanha que custou a vida a Anita. Visão suficiente para fazer dele o “herói de dois mundos”, líder de homens que lutaram contra tiranias nos dois lados do Atlântico.

Definida a visão de futuro, há uma missão que dela decorre. Assunto para outro post.

4 Comments

  1. Iber Pancrácio  •  set 14, 2009 @9:30

    Entendo que aglutinar conceitos diversos, que foram elaborados em contextos diversos e, talvez em épocas diferentes, cenários diferentes de Mercado tornam as referências um pouco confusas. Obtêm-se um resultado um pouco controverso ao esperado. Gostei do seu post. Parabéns.

  2. alberto  •  set 14, 2009 @13:00

    Iber,
    fico feliz que você tenha chamado a atenção para esse ponto. De fato, tem sido comum, e não só com o Drucker. Um bocado de livretos têm sido publicados com títulos como “O pensamento de …”. Alguns não passam de arapucas editoriais, pasteurizando conceitos para que analfabetos funcionais que nunca deveriam ter chegado à universidade possam dizer: “eu li fulano…” ou “beltrano disse…”.
    Obrigado pelo comment.
    Alberto

  3. Eteocles Silva  •  set 2, 2010 @21:59

    Precisamos de um bom tempo juntos para eu contar a história de como a Nokia chegou na declaração da visão: Connecting People e o simbolo das màos se encontrando… O que voce acha desta declaração? é claro que existe uma declaração adicional que expressa melhor o que venha a ser conectar… há 20 anos atrá no surgimento do celular era totalmente diferente de hoje.

    abcs Teo

  4. alberto  •  set 3, 2010 @21:45

    Teo,
    me ofereça um café em Manaus e terei prazer em ouvir essa história de um impacto desejado, de uma mudança promovida, gestada tão longe como é a Islândia para tornar-se um fenômeno em todo o mundo. O valor de uma visão tão ampla é que 20 anos é pouco tempo para ela - estende-se até onde a imaginação possa conduzir a tecnologia e mantém-se ligada à humanidade e suas aspirações. Inspiradora!

    Abs.
    Alberto

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